O novo governo
terá muitos desafios pela frente. Conseguirá ele dar nova direção após o fim da
era Lula e Dilma?
Brunno Braga
A conclusão do processo que culminou com o impeachment
da primeira mulher a ocupar o cargo político máximo no Brasil não somente
representou a interrupção de um mandato marcado por uma severa crise política e
econômica no país, mas, também, marcou o término de 13 anos da era petista no
comando da política nacional.
Durante todo esse período no qual o governo do PT, que
se iniciou com a eleição do ex-metalúrgico Luís Inácio Lula da Silva para
presidente, em 2002, o setor de petróleo experimentou momentos de extrema
euforia, dúvidas, incertezas e, mais recentemente, desânimo por conta de fatores
externos– queda brusca no preço do barril no mercado internacional e a
crescente demanda chinesa por commodities em geral – e internos – escândalo de
corrupção envolvendo a principal companhia de petróleo do Brasil, a Petrobras.
É possível verificar, desse modo, que durante toda
essa trajetória houve acertos e erros na política para o segmento no país. O
aumento expressivo da produção,- que aumentou 35% entre 2002 e 2014, saindo de
1,7 milhão de barris por dia para 2,5 milhões de barris por dia, alguns
incentivos para capacitação da indústria e da mão-de-obra local e a descoberta
de reservas gigantescas na camada do pré-sal foram, sem dúvida, fatos positivos
vividos ao longo da era Lula e Dilma.
Com todo esse movimento, favorecido pela conjuntura
internacional, já que o barril do petróleo alcançou valorização recorde, o
Brasil foi alvo de grande interesse por parte de empresas estrangeiras. Elas
viam no país, que também mostrava bons resultados e estabilidade na sua política
macroeconômica durante os primeiros anos do século, uma ótima oportunidade para
investimentos.
Assim, grandes projetos e empreendimentos foram
implementados e deram um grande impulso na geração de emprego e renda,
sobretudo no estado do Rio de Janeiro, responsável por quase 90% da produção
nacional.
Um dos setores que mais se beneficiaram com o boom do
petróleo no mundo foi o da indústria naval. Depois de amargar mais e duas
décadas de total esvaziamento, a indústria de construção de embarcações
offshore nacional viveu a sua era e ouro, com encomendas demandadas pela
Petrobras.
De acordo com dados do Sindicato
Nacional da Indústria da Construção e Reparação Naval e Offshore (SINAVAL), a indústria naval teve um faturamento médio de R$ 5 bilhões entre 2003 e
2009. Somente em 2010, a carteira de encomendas dos estaleiros registrava 156
empreendimentos, em construção ou finalizados, sendo 84 navios – petroleiros,
porta-contêineres e graneleiros –, 23 navios de apoio marítimo e cerca de 43
rebocadores de apoio portuário, empurradores e balsas para transporte fluvial e
outras embarcações. Além disso, a indústria
brasileira de construção naval já chegou a empregar diretamente mais de 46 mil
pessoas.
Como prova da grande
atratividade do mercado brasileiro de petróleo e gás os resultados da 11ª rodada
de licitação da ANP, realizada em 2013, registrou, após cinco anos sem certame,
recorde de empresas concorrentes e de bônus de assinatura. De acordo com dados
da autarquia, 30 empresas adquiriram os 142 blocos.
Além da procura por parte
de grandes companhias estrangeiras para adentrarem no mercado brasileiros de
petróleo, foram criadas no Brasil novas empresas voltadas exclusivamente para
operar em campos nacionais. No entanto, a mais emblemática delas foi a EBX,
holding criada pelo empresário Eike Batista e que pretendia fazer dele um dos
maiores conglomerados de energia do mundo. A ascensão e queda de Eike Batista
no segmento de petróleo foi um dos eventos mais marcantes do período e que teve
forte repercussão dentro do segmento.
Gargalos que permanecem
Mas nem tudo foram benesses e euforia durante esse período. Não se restringindo apenas à crise no setor causada pela operação Lava-Jato, cujos desdobramentos ainda estão em curso, as inúmeras oportunidades geradas foram, de certa forma, eclipsadas por obstáculos criados pelo governo federal, segundo muitos representantes da indústria. Alguns deles trouxeram apreensões e dúvidas quanto a investimentos a serem aportados no Brasil. O longo jejum de cinco anos (2007 a 2013) de leilões após sete anos ininterruptos foi um deles.
Por questões ainda controversas (o governo justificava o impasse na questão da partilha de royalties), a indústria teve que represar seus investimentos numa época em que o preço petróleo já alcançava patamares muito acima do que era visto em anos. E, mesmo, com a retomada dos leiloes, o governo Dilma antes dos últimos dias de deixar o cargo, não conseguiu implementar uma agenda de leilões reivindicada pelo Instituto Brasileiro de Petróleo, Gás e Biocombustíveis (IBP).
Para contribuir com esse sentimento, as críticas relacionadas ao novo marco
regulatório do pré-sal, que, entre outras regras, obriga a Petrobras a ser a
operadora única para futuros contratos de licitação para exploração do pré-sal,
é visto como um retrocesso à lei 9478/97, que estabelecia o fim do monopólio da
Petrobras no Brasil.
A
legislação sobre a obrigatoriedade do conteúdo local também foi tema de embates
entre o governo e operadoras. Segundo dados da Agência Nacional de Petróleo,
Gás e Biocombustíveis (ANP), somente em 2015 15 empresas foram multadas por
descumprirem a lei, considerada extremamente rígida para os padrões
internacionais.
A baixa
qualificação de mão de obra e precariedade nos corredores logísticos também
sempre foram objetos de críticas por parte de empresários do setor e que
durante os 13 anos, tiveram poucos avanços em termos de melhoria.
Da ascensão à queda
“De todo
histórico da gestão da presidente impeachada, o ponto mais importante é a
constatação é de que Dilma Rousseff deixa o cargo e passa para o seu sucessor uma
Petrobras em situação crítica, não somente em função dos escândalos da
(operação) Lava Jato, mas também do forte e equivocado intervencionismo estatal
na empresa, usada, inclusive, com objetivos políticos”, disse uma fonte que
pediu para não ser identificada.
A
Petrobras viveu grande parte dos 13 anos da era petista com grande galhardia.
Após anunciar a descoberta do pré-sal. O aumento das reservas descobertas
atraiu a atenção do mundo e fez a empresa se tornar um player de destaque no
mercado internacional de ações, tendo o seu valor em bolsa, tanto no Brasil
como nos Estados Unidos, atingindo níveis excelentes. Hoje, a Petrobras é a
petroleira mais endividada do mundo (cerca de US$ 130 bilhões), perdeu o grau
de investimento das principais agências de rating do mundo e luta para vender
ativos num mercado em crise e que não está muito disposto a ir às compras.Reestrutur a maior empresa do Brasil nã será tarefa fácil para o novo presidente da Petrobras, Pedro Parente.
O que esperar do novo governo e de sua política para o petróleo?
O novo
governo que assume e que tem mandato até 2018 já determinou algumas mudanças na
política macroeconômica. Com um discurso de orientação mais liberal, isto é,
com uma postura menos intervencionista por parte do Estado, o primeiro passo a
ser dado será tentar conter a sangria nos cofres públicos, causados, sobretudo,
por gastos excessivos da gestão anterior, que, segundo dados oficiais deixou um
rombo de R$ 170 bilhões.
Contudo,
mesmo com o anúncio do pacote de medidas feito em maio pelo ministro da Fazenda
Henrique Meirelles, o governo Temer ainda não se posicionou a respeito do que
fica e que muda em sua nova gestão. Será que Meirelles conseguirá implementar
uma política mais liberal de preços de combustíveis? A nomeação do novo
ministro de Minas e Energia, Fernando Coelho Filho (PSB-PE), ainda é vista com
certa precaução pelo segmento, já que ele não tem experiência no setor de
petróleo e gás e, por isso, terá de se valer de bons assessores para buscar
implementar políticas que atendam ao setor.
Alguns
movimentos podem dar sinais positivos. ´Recentemente, o Senado aprovou projeto
de lei de autoria do senador José Serra (PSDB-SP) que altera o marco
regulatório do petróleo, sancionado em 2010, e que retira o status de ter a
Petrobras como operadora única em campos do pré-sal. O projeto ainda terá de
ser votado na Câmara dos Deputados.
No
entanto, é preciso considerar que a operação Lava Jato ainda está longe de ser
finalizada. A cada dia surge novas denúncias, com novos envolvidos, inclusive
com membros que compõe este novo governo.
Tal situação causa paralisia e refração de
investimentos, tão necessários para que o mercado não entre em colapso total.
Por mais que as crises externa interna tenham ainda muita influência no setor,
as atividades relacionadas à indústria do petróleo respondem por 12% do PIB.
Por isso, é preciso que o novo governo trabalhe para que um novo amanhã surja
para a indústria.
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