terça-feira, 31 de maio de 2016

Entrevista Matt Wood, UK Trade Brazil - "Temos hoje 200 empresas britânicas da cadeia produtiva de óleo e gás presentes no Brasil"



Para o diretor geral da UK Trade & Investments no RJ, Matt Wood, as similaridades entre Brasil e Reino Unido são muito grandes no segmento de óleo e gás offshore










Rio de Janeiro (Brasil) - O Reino Unido e Brasil sempre tiveram boas relações no segmento de óleo e gás. Esse relacionamento se intensificou em função do forte aquecimento vivido pela indústria nos últimos anos. Com objetivo de aumentar ainda mais a presença de empresas britânicas no mercado brasileiro, a UK Trade & Investment in Brazil, departamento de promoção comercial do governo do Reino Unido, promoveu em março um encontro entre empresários, membros dos governos brasileiro e britânico e acadêmicos para discutirem pautas que possam ajudar a impulsionar os negócios entre os dois países.

Em entrevista, Matt Woods, cônsul-Geral Adjunto e diretor do UK Trade & Investment no Rio de Janeiro, falou sobre o nível das oportunidades e os desafios existentes para realização de negócios entre os dois países. Leia, abaixo, os principais trechos da entrevista:



Qual é o peso do Brasil para o Reino Unido no segmento de óleo e gás? 

Matt Woods - O setor de energia, mais especificamente o de óleo e gás, é um dos mais exitosos dentre todas as nossas campanhas no Brasil. Inclusive o Brasil é atualmente o segundo mais bem sucedido parceiro global para companhias Britânicas do setor com o apoio do Governo Britânico. Apenas nos últimos três anos, ajudamos empresas do Reino Unido a fecharem negócios de cerca de R$ 12 bilhões no setor de petróleo e gás/ energia no Brasil. Temos hoje 200 empresas britânicas da cadeia produtiva de óleo e gás presentes no Brasil e nos últimos três anos foram organizadas 25 missões comerciais entre os dois países. Falando no futuro, não podemos esquecer que o pré-sal deve ser bastante explorado e traz excelentes perspectivas para a economia brasileira em longo prazo. Esta ainda é a maior descoberta de petróleo do hemisfério ocidental dos últimos 40 anos, estimada em 50 bilhões de barris de petróleo, e é também uma ótima oportunidade para as empresas britânicas, pois podemos ser valiosos parceiros para o Brasil na exploração do pré-sal, contribuindo com a expertise obtida no mar do norte e tecnologia de ponta.


Na sua opinião, quais são as grandes vantagens e desvantagens para empresas britânicas do segmento de óleo e gás atuarem no Brasil?


 M.W. - As similaridades entre o Brasil e o Reino Unido são muito grandes. A experiência de exploração e produção por mais de 50 anos no Mar do Norte levaram a indústria britânica a desenvolver uma forte cadeia de fornecedores que muito pode contribuir para os investimentos no Brasil em águas profundas, mais especificamente no pré-sal. Este ano tivemos a quarta edição do UK Energy in Brazil, um evento anual em que nós promovemos a troca de experiências entre empresas britânicas e brasileiras, além de apresentar novas tecnologias e debater os desafios do setor. Justamente pensando no potencial do Reino Unido e nas oportunidades no Brasil foi que definimos os 3 temas principais do UK energy In Brazil deste ano: Construção Naval e Offshore, Maximização da Produção e Subsea.

Quantas companhias de petróleo atuam atualmente no Brasil no segmento de óleo e gás? Há alguma expectativa de crescimento deste número?

M.W. - Temos grandes empresas como a Shell e BP, e grandes empresas fornecedoras como Rolls Royce, Wood Group e AMEC Foster Wheeler. Mas também existe um nú- mero significativo de empresas britâ- nicas de pequeno e médio porte. São mais de 200 empresas britânicas atuando nos segmentos de petróleo e gás e indústria naval no Brasil. Mesmo as empresas pequenas têm trazidos tecnologias inovadoras implementadas no Mar do Norte para o offshore brasileiro. Acreditamos que há espaço para muito mais. No campo da mineração, a Anglo American tem desenvolvido projetos em Minas Gerais e Goiás. Já no setor elétrico, a nossa participação tem sido mais tímida em termos, mas não pela falta de oportunidades no mercado - queremos aumentar nossa presenca neste segmento. Há também uma presen- ça significativa de empresas e investidores britânicos em outro setores, como no farmacêutico, de infraestrutura, automotivo e outros. Para o UK Energy in Brazil 2016 recebemos 18 empresas interessadas em negócios e parcerias com o Brasil.




       A Shell é uma das empresas britânicas que mais investe no mercado offshore brasileiro




O Brasil está passando atualmente por problemas sérios por conta de escândalos de corrupção na Petrobras, afetando negócios de muitas empresas que atuam no setor. Como a UK Trade está acompanhando esse problema?



M.W. - Em tempos de grandes desafios, as empresas e indústrias precisam inovar mais. E a inovação muitas vezes vem não só de ideias originais, mas a partir da evolução de ideias, tecnologias transportadas de uma realidade para outra, através do estreitamento das parcerias. E é justamente essa parceria fundamental, essa troca de ideias, tecnologias e experiências entre empresas brasileiras e do Reino Unido que o evento possibilita. A situação atual também possibilita com que empresas brasileiras de qualidade possam buscar mais sócios britânicos. É uma oportunidade para as empresas britânicas apostarem nos ganhos a longo prazo, pois essas maior feira offshore do mundo e a principal feira da Europa, realizada em Aberdeen, na Escócia, em uma mis - são organizada pelo UKTI, em parce - ria com a Confederação Nacional de Indústria (CNI).





Há algum acordo ou convênio entre empresas britânicas e empresas brasileiras coordenado pela UK Trade no campo da Pesquisa e Desenvolvimento e Inovação para o segmento de óleo e gás? Como elas podem aproveitar as oportunidades existentes no mercado britânico? 

M.W. - Nossas atividades e projetos têm nos ajudado a construir relacionamentos sólidos com o governo brasileiro e com isso implementar atividades fru - tíferas não só para o Brasil e o Reino Unido mas também no âmbito glo - bal. Investimos em projetos que pro - porcionam win-win, ou seja, oportu - nidades que apresentam uma boa troca de experiências para ambos os países e que sejam interessantes para o avanço ou aprimoramento de políticas públicas e que possivelmente gerarem oportunidades de negó cios também.


E a que o senbor atribui esse sucesso?

M.W.-O sucesso da parceria entre o Reino Unido e o Brasil no setor de energia se deve a um envolvimento integral que vai além das conhecidas parce - rias comerciais. Projetos que visam o compartilhamento de conhecimento têm ganhado cada vez mais espaço, potencializados pelo memorando de entendimento para a cooperação no setor de energia, assinado por ambos países em 2006. O interesse acadê - mico também é considerável - apenas em 2015, o Reino Unido recebeu 11 mil estudantes brasileiros pelo programa Ciências Sem Fronteiras, muitos deles ligados ao setor de Óleo e Gás. Por meio de dois fundos de finan - ciamento e cooperação bilateral – o Prosperity Fund, que apoia o desen - volvimento do Brasil em áreas estra - tégicas da economia, como logística e infraestrutura, e o Newton Fund, que dá suporte a iniciativas de ciê cia, tecnologia e inovação, temos au - mentado muito nossos investimen - tos no Brasil. Em janeiro Prosperity Fund anunciou um investimento glo bal de £1.3 bilhões (cerca de R$ 7.8 bilhões) em cooperação para os pró - ximos 5 anos, sendo o Brasil um país prioritário. Recebemos um número de projetos sem precedentes. Foram cerca de 800, número 6 vezes supe - rior ao do que o ano passado. Como a area de energia é prioritária para o Prosperity Fund no Brasil, certamente teremos excelente projetos que en - volvam o setor de O&G nos próximos 5 anos.

Como a atual crise de pe - tróleo atual, que apresenta preços bastante baixos, está afetando a indústria britânica de óleo e gás como um todo? O senhor poderia falar em número? 

M.W. - É um momento delicado para a indústria como um todo, e ocorrem, no momento, reduções de custos em todos os setores a nível mundial. A verdade é que as reservas petrolíferas na região do pré-sal garantem a atra - tividade do Brasil. Além disso, temos hoje uma libra esterlina muito mais forte do que há um ano, o que signi - fica um cenário melhor para investi - dores do Reino Unido. O intercâmbio pode diminuir o nú mero de negócios porque as empre - sas diminuem os investimentos com o preço de petróleo mais embaixo, mas por outro lado, em um cenário de crise há sempre mais espaço para colaboração. Pode diminuir os inves - timentos das empresas, mas há es - paço para continuar a ter colaboração e parcerias. Dentro dessa perspectiva, a combina - ção do estado da arte da tecnologia e do capital que as empresas britâ - nicas podem oferecer é bastante in - teressante para um bom número de empresas brasileiras, particularmente aquelas de pequeno e médio porte, menos capazes de suportar as pres - sões atuais sem a injeção de capital. Tudo isso – junto com a demanda de produtos e serviços – pode resultar em alianças que, de alguma forma, sejam uma boa maneira de capitali - zar durante esse período de crise.

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