Para o diretor geral da UK Trade & Investments no RJ, Matt Wood, as similaridades entre Brasil e Reino Unido são muito grandes no segmento de óleo e gás offshore
Rio de Janeiro (Brasil) - O Reino Unido e Brasil sempre tiveram boas
relações no segmento de óleo e gás. Esse
relacionamento se intensificou em função do
forte aquecimento vivido pela indústria nos
últimos anos. Com objetivo de aumentar ainda
mais a presença de empresas britânicas no
mercado brasileiro, a UK Trade & Investment in
Brazil, departamento de promoção comercial
do governo do Reino Unido, promoveu em
março um encontro entre empresários,
membros dos governos brasileiro e britânico
e acadêmicos para discutirem pautas que
possam ajudar a impulsionar os negócios entre
os dois países.
Em entrevista, Matt Woods, cônsul-Geral Adjunto e diretor do
UK Trade & Investment no Rio de Janeiro, falou
sobre o nível das oportunidades e os desafios
existentes para realização de negócios entre os
dois países. Leia, abaixo, os principais trechos
da entrevista:
Qual é o peso
do Brasil para o Reino Unido no
segmento de óleo e gás?
Matt Woods - O setor de energia,
mais especificamente o de óleo e gás,
é um dos mais exitosos dentre todas as
nossas campanhas no Brasil. Inclusive
o Brasil é atualmente o segundo mais
bem sucedido parceiro global para
companhias Britânicas do setor com o
apoio do Governo Britânico.
Apenas nos últimos três anos, ajudamos
empresas do Reino Unido a fecharem
negócios de cerca de R$ 12
bilhões no setor de petróleo e gás/
energia no Brasil. Temos hoje 200
empresas britânicas da cadeia produtiva
de óleo e gás presentes no Brasil
e nos últimos três anos foram organizadas
25 missões comerciais entre os
dois países.
Falando no futuro, não podemos esquecer
que o pré-sal deve ser bastante
explorado e traz excelentes perspectivas
para a economia brasileira em longo
prazo. Esta ainda é a maior descoberta
de petróleo do hemisfério ocidental
dos últimos 40 anos, estimada
em 50 bilhões de barris de petróleo,
e é também uma ótima oportunidade
para as empresas britânicas, pois
podemos ser valiosos parceiros para o
Brasil na exploração do pré-sal, contribuindo
com a expertise obtida no mar
do norte e tecnologia de ponta.
Na sua opinião, quais são
as grandes vantagens e desvantagens
para empresas britânicas do
segmento de óleo e gás atuarem no
Brasil?
M.W. - As similaridades entre o Brasil
e o Reino Unido são muito grandes.
A experiência de exploração e produção
por mais de 50 anos no Mar
do Norte levaram a indústria britânica
a desenvolver uma forte cadeia de
fornecedores que muito pode contribuir
para os investimentos no Brasil
em águas profundas, mais especificamente
no pré-sal. Este ano tivemos
a quarta edição do UK Energy in
Brazil, um evento anual em que nós
promovemos a troca de experiências
entre empresas britânicas e brasileiras,
além de apresentar novas tecnologias
e debater os desafios do setor.
Justamente pensando no potencial
do Reino Unido e nas oportunidades
no Brasil foi que definimos os
3 temas principais do UK energy In
Brazil deste ano: Construção Naval e
Offshore, Maximização da Produção
e Subsea.
Quantas companhias de petróleo
atuam atualmente no Brasil
no segmento de óleo e gás? Há alguma
expectativa de crescimento
deste número?
M.W. - Temos grandes empresas
como a Shell e BP, e grandes empresas
fornecedoras como Rolls
Royce, Wood Group e AMEC Foster
Wheeler. Mas também existe um nú-
mero significativo de empresas britâ-
nicas de pequeno e médio porte. São
mais de 200 empresas britânicas atuando
nos segmentos de petróleo e
gás e indústria naval no Brasil. Mesmo
as empresas pequenas têm trazidos
tecnologias inovadoras implementadas
no Mar do Norte para o offshore
brasileiro. Acreditamos que há espaço
para muito mais. No campo da
mineração, a Anglo American tem desenvolvido
projetos em Minas Gerais
e Goiás. Já no setor elétrico, a nossa
participação tem sido mais tímida
em termos, mas não pela falta de
oportunidades no mercado - queremos
aumentar nossa presenca neste
segmento. Há também uma presen-
ça significativa de empresas e investidores
britânicos em outro setores,
como no farmacêutico, de infraestrutura,
automotivo e outros.
Para o UK Energy in Brazil 2016 recebemos
18 empresas interessadas
em negócios e parcerias com o Brasil.

A Shell é uma das empresas britânicas que mais investe no mercado offshore brasileiro
O Brasil está passando atualmente
por problemas sérios por conta de escândalos
de corrupção na Petrobras,
afetando negócios de muitas empresas
que atuam no setor. Como a UK
Trade está acompanhando esse problema?
M.W. - Em tempos de grandes desafios, as
empresas e indústrias precisam inovar
mais. E a inovação muitas vezes
vem não só de ideias originais, mas
a partir da evolução de ideias, tecnologias
transportadas de uma realidade
para outra, através do
estreitamento das parcerias.
E é justamente essa parceria
fundamental, essa troca
de ideias, tecnologias e
experiências entre empresas
brasileiras e do Reino
Unido que o evento possibilita.
A situação atual também
possibilita com que empresas
brasileiras de
qualidade possam buscar
mais sócios britânicos.
É uma oportunidade
para as empresas
britânicas apostarem
nos ganhos a longo
prazo, pois essas maior feira offshore do mundo e a
principal feira da Europa, realizada em
Aberdeen, na Escócia, em uma mis
-
são organizada pelo UKTI, em parce
-
ria com a Confederação Nacional de
Indústria (CNI).

Há algum acordo ou convênio entre empresas britânicas e empresas brasileiras coordenado pela
UK Trade no campo da Pesquisa e
Desenvolvimento e Inovação para o
segmento de óleo e gás? Como elas
podem aproveitar as oportunidades
existentes no mercado britânico?
M.W. - Nossas atividades e projetos têm nos
ajudado a construir relacionamentos
sólidos com o governo brasileiro e
com isso implementar atividades fru
-
tíferas não só para o Brasil e o Reino
Unido mas também no âmbito glo
-
bal. Investimos em projetos que pro
-
porcionam win-win, ou seja, oportu
-
nidades que apresentam uma boa
troca de experiências para ambos
os países e que sejam interessantes
para o avanço ou aprimoramento de
políticas públicas e que possivelmente gerarem oportunidades de negó cios também.
E a que o senbor atribui esse sucesso?
M.W.-O sucesso da parceria entre o Reino
Unido e o Brasil no setor de energia
se deve a um envolvimento integral
que vai além das conhecidas parce
-
rias comerciais. Projetos que visam o
compartilhamento de conhecimento
têm ganhado cada vez mais espaço,
potencializados pelo memorando de entendimento para a cooperação no
setor de energia, assinado por ambos
países em 2006. O interesse acadê
-
mico também é considerável - apenas em 2015, o Reino Unido recebeu
11 mil estudantes brasileiros pelo
programa Ciências Sem Fronteiras,
muitos deles ligados ao setor de Óleo
e Gás.
Por meio de dois fundos de finan
-
ciamento e cooperação bilateral – o
Prosperity Fund, que apoia o desen
-
volvimento do Brasil em áreas estra
-
tégicas da economia, como logística
e infraestrutura, e o Newton Fund,
que dá suporte a iniciativas de ciê cia, tecnologia e inovação, temos au
-
mentado muito nossos investimen
-
tos no Brasil. Em janeiro Prosperity
Fund anunciou um investimento glo bal de £1.3 bilhões (cerca de R$ 7.8
bilhões) em cooperação para os pró
-
ximos 5 anos, sendo o Brasil um país
prioritário. Recebemos um número
de projetos sem precedentes. Foram
cerca de 800, número 6 vezes supe
-
rior ao do que o ano passado. Como
a area de energia é prioritária para o
Prosperity Fund no Brasil, certamente
teremos excelente projetos que en
-
volvam o setor de O&G nos próximos
5 anos.
Como a atual crise de pe
-
tróleo atual, que apresenta preços
bastante baixos, está afetando a
indústria britânica de óleo e gás
como um todo? O senhor poderia
falar em número?
M.W. - É um momento delicado para
a indústria como um todo, e ocorrem,
no momento, reduções de custos em
todos os setores a nível mundial. A
verdade é que as reservas petrolíferas
na região do pré-sal garantem a atra
-
tividade do Brasil. Além disso, temos
hoje uma libra esterlina muito mais
forte do que há um ano, o que signi
-
fica um cenário melhor para investi
-
dores do Reino Unido.
O intercâmbio pode diminuir o nú mero de negócios porque as empre
-
sas diminuem os investimentos com
o preço de petróleo mais embaixo,
mas por outro lado, em um cenário
de crise há sempre mais espaço para
colaboração. Pode diminuir os inves
-
timentos das empresas, mas há es
-
paço para continuar a ter colaboração
e parcerias.
Dentro dessa perspectiva, a combina
-
ção do estado da arte da tecnologia
e do capital que as empresas britâ
-
nicas podem oferecer é bastante in
-
teressante para um bom número de
empresas brasileiras, particularmente
aquelas de pequeno e médio porte,
menos capazes de suportar as pres
-
sões atuais sem a injeção de capital.
Tudo isso – junto com a demanda de
produtos e serviços – pode resultar
em alianças que, de alguma forma,
sejam uma boa maneira de capitali
-
zar durante esse período de crise.